O continente africano em minha escrita
No início dos anos 2000, a querida Ana Claudia da Silva, Professora da Universidade de Brasília, defendeu na Universidade de São Paulo uma dissertação de mestrado sobre Mia Couto e Guimarães Rosa que foi das primeiras no Brasil a refletir sobre a obra do escritor moçambicano. Ela havia me apontado "Terra sonâmbula" numa livraria. Comprei, li e me apaixonei. Decidi que estudaria Mia Couto no Doutorado, o que realmente acabei fazendo. A Universidade de São Paulo era, naqueles anos, um lugar em que encontrávamos escritoras e escritores dos países africanos de língua portuguesa, estudávamos suas obras e tentávamos, com ajuda de muitos professores de Letras e Ciências Sociais, conseguir novos títulos tanto literários quanto de outras áreas das humanidades. A poesia permeava os cursos, apostilas caseiras nos faziam conhecer melhor mapas, biografias e peculiaridades de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Alguns anos depois, tese defendida sobre romances de Mia Couto, Ana Maria Machado e José Saramago, comecei a pensar sobre o conto popular. Foi na Editora Nova Alexandria, para onde tinha sido levada por um colega de doutorado, Jeosafá Fernandes Gonçalves, então editor na casa, que recebi a encomenda de realizar um livro de recontos a partir de contos populares dos 5 países. Meu primeiro movimento foi tentar encontrar colegas desses países que, a essa altura, 2012, vinham estudar na universidade. Mas, tempo pouco e poucos estudantes encontrados, fizeram com que o necessário "empurrãozinho" me convencesse a fazer este, que é um dos livros mais lidos de minha produção, "O tambor africano e outros contos dos países africanos de língua portuguesa".
Tempos depois, conduzi uma pesquisa extensa sobre contos populares de todo o continente, que durou dois anos. Por motivos diversos, demoraria alguns anos para que ela se transformasse em livros. Primeiro, e já durante a Pandemia, veio "Contos ancestrais de mulheres valentes", pela Quase Oito, do Rio de Janeiro.
Após vários anos felizes e a chegada de muitos exemplares desses contos ancestrais para a Rede Municipal da cidade de São Paulo pelo programa Minha Biblioteca, encerramos o ciclo desse livro que teve o mérito de ressaltar a coragem e valentia em contos de todo o continente.
Contos da Eritreia, Etiópia, Egito vieram a compor o bonito "Um pai muito sábio e outros contos africanos", pela Florear Livros, em 2023. O ano de 2025 trouxe a possibilidade de trabalhar muito do material pesquisado uma década antes. Assim, em breve teremos nas escolas, bibliotecas e livrarias De onde vieram as histórias e outros contos africanos (com João Paulo Puerta), A origem dos pássaros e outros contos africanos, A princesa das nuvens e outros contos africanos, Contos africanos de heróis e heroínas e Contos africanos de mulheres sábias e valentes (parceria com Maurício Veneza).
A sensação é de alegria muito profunda, de missão cumprida com alegria e rigor, de esperança nos leitores. Resta ainda um texto inédito, já pronto, para um projeto que venho sonhando há alguns anos. Uma hora ele também verá a luz do dia.






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